A repatriação de peças e o papel da Museologia
Fonte: Reprodução Alô Alô Bahia
No dia 12 de janeiro de 2026, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) recebeu um acervo de mais de 600 peças. Obras de J. Cunha, Goya Lopes, Zé Ladário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, Sol Bahia e Manoel Bonfim retornam ao solo brasileiro como parte deste processo.
Essas obras foram adquiridas pelas norte-americanas Bárbara Cervenka e Marion Jackson e estavam sob suas guardas até início deste ano, quando decidiram doá-las para o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), que por sua vez decidiu que o MUNCAB seria a instituição que sediaria o retorno dessas peças.
Incluindo uma série de pinturas, esculturas, xilogravuras, fotografias e arte sacra, as peças já estão passando pelo trâmite de adição ao acervo do museu, que se prepara para a abertura da nova exposição no dia 6 de março. Nesse meio tempo, as profissionais da museologia, conservação e história embarcam em um processo de pesquisa sobre as peças, planejando a expografia que melhor comunica o contexto de exibição dessa coleção recém-chegada e reunindo informações sobre a narrativa histórica na qual ela se encaixa.
É importante destacar o papel da pessoa museóloga em casos como esses. A Museologia é a área do conhecimento das ciências humanas aplicadas que busca compreender e interpretar o patrimônio e as expressões culturais. Esses processos ocorrem a partir de ações que visam a preservação e pesquisa a partir de práticas de documentação, comunicação, educação, conservação e exposição. Como primeira ação, no momento de chegada das peças, a museóloga deve avaliar o estado de integridade das obras individualmente, comparando com o laudo que foi feito no momento de saída do local anterior, assim, realizando um novo laudo, relatando possíveis avarias ou diferenciações do laudo primeiramente feito.
Essa é uma ação que combina documentação museológica e conservação/restauro, pois é a partir da interpretação e avaliação da profissional que é possível identificar a peça, fazer um relato escrito descritivo e assim, planejar possíveis ações de restauração ou manutenção do objeto em questão. É um processo detalhado e minucioso, dado ao escopo da ocasião, em se tratando de mais de 600 peças, também é longevo.
Logo em seguida, o processo de planejamento da exposição é iniciado. É possível fazer conexão com outras expressões culturais, por exemplo, e traçar uma linha de raciocínio que conecta as obras apresentadas. O MUNCAB, inclusive, já selecionou obras para exposição a partir de trechos do livro Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves. Essa é uma maneira de conectar obras do cotidiano com a narrativa da exposição, criando uma relação entre o conteúdo aprendido fora do museu, com o que pode ser aprendido dentro do museu.
Essa etapa de expografia é importante pois é nela que é planejada a sequência de obras que serão apresentadas, quais serão elas (juntamente com a pessoa curadora), qual a narrativa proposta, quais serão os blocos narrativos/expositivos, qual o objetivo principal de cada um deles, como que a proposta de exposição se alinha com a missão e os valores do museu…
Assim, alinhados com o setor de pesquisa e Museologia, as pessoas educadoras e mediadoras culturais assumem o controle das salas do museu a partir do momento de abertura da exposição. São essas profissionais que darão maior contexto das temáticas da exposição para as visitantes, assim como planejam e executam ações educativas-culturais que se relacionam com a exposição em certa medida, criando uma experiência educativa a partir do contato com o patrimônio artístico e/ou histórico.
E para quem pensa que o trabalho de um setor acaba quando o outro começa, aí é quem se engana. Mesmo a exposição ocorrendo, a documentalista continua o processo de pesquisa e catalogação das obras, assim como a conservadora/restauradora, que avalia as possíveis intercorrências que podem acometer a exposição, planejando maneiras de evitar acidentes e exposições prejudiciais.
No caso da repatriação dessas peças, qualidade que caracteriza o retorno à origem, é imprescindível destacar a força simbólica por detrás da ação. As obras dessas artistas são retrato pessoal, mas também coletivo, de brasilidade. As referências à cultura, religiões e crenças, mitos e cotidianidades são expressões de caráter regional, configurando a volta dessas peças uma das maiores repatriações na história do Brasil.
Esta repatriação é garantia de continuação de pesquisa e preservação dos produtos artísticos-culturais brasileiros. O conhecimento científico e o conhecimento popular inerentes das instituições brasileiras possibilitam observar o contexto das obras de maneira mais aproximada, portanto, especificando exatamente o ambiente e contexto sociocultural essenciais para a produção de expressões culturais e quais são os meios possíveis de preservá-las.
A museologia, por fim, desempenha papel fundamental e indispensável no tratamento de acervos, portanto, na preservação de memória popular e produção científica. É a partir do museu que é possível compreender o papel social e agencial que a cultura e a expressão popular competem na identidade e formação de um povo. Viva a repatriação! E vida longa à produção científica feita nos museus!










