Inclusão escolar exige mais que matrícula e aponta desafios na formação de professores

  • Júnior Patente
  • Atualizado: 17/03/2026, 09:22h

Garantir uma educação de qualidade para todos os estudantes ainda é um dos grandes desafios do sistema educacional brasileiro. Quando o assunto é inclusão escolar, especialistas defendem que o processo vai muito além de simplesmente matricular alunos com deficiência ou necessidades específicas na rede de ensino. É preciso estrutura, formação adequada e, principalmente, mudança de cultura.

A pedagoga e pesquisadora Janaína Serejo, mestre em educação e doutoranda na área, destaca que uma escola verdadeiramente inclusiva é aquela que reconhece e atende às diferentes formas de aprendizagem.

“Uma escola inclusiva é aquela que não faz distinção entre os estudantes. Ela garante participação, aprendizagem e adapta o currículo conforme as necessidades de cada aluno, sejam elas físicas ou mais invisíveis, ligadas ao processo de aprendizagem”, explica.

Formação docente ainda é desafio

Um dos principais entraves para a inclusão, segundo a especialista, está na formação dos professores. Apesar dos avanços, ela afirma que a preparação oferecida nos cursos de licenciatura ainda é insuficiente.

“Muitas vezes, a responsabilidade recai sobre o professor, mas precisamos olhar para a formação inicial. Hoje, os cursos de licenciatura têm basicamente duas disciplinas obrigatórias: Libras e Educação Especial Inclusiva. Isso não é suficiente para preparar o profissional para a complexidade da sala de aula”, afirma.

Janaína cita dados que evidenciam essa lacuna. De acordo com ela, houve um crescimento significativo na busca por formação complementar na área. “Entre 2019 e 2023, as matrículas em cursos de educação especial cresceram mais de 40%. Em 2025, já são cerca de 2,5 milhões de professores buscando essa formação. Isso mostra que eles estão tentando suprir uma deficiência que não foi atendida na graduação”, destaca.

Inclusão vai além da presença em sala

Outro ponto fundamental é entender que inclusão não se resume à presença do aluno na escola. Para a especialista, é preciso garantir condições reais de aprendizagem e desenvolvimento.

“Não basta matricular. É necessário adaptar o currículo, estruturar a escola e garantir uma equipe preparada para atender esse estudante”, ressalta.

Ela também reforça a importância da parceria entre escola e família nesse processo. “A família conhece profundamente o estudante e pode contribuir muito com estratégias que funcionam no dia a dia. Essa troca fortalece o trabalho pedagógico e potencializa os resultados”, afirma.

Papel do atendimento especializado

O Atendimento Educacional Especializado (AEE) é apontado como um importante aliado no processo de inclusão, embora não seja, por si só, garantia de sucesso.

“Eu não diria que garante, mas potencializa muito. Quando há uma equipe multidisciplinar — com professores, psicólogos e psicopedagogos — o acompanhamento se torna mais completo e eficiente”, explica Janaína.

Segundo ela, a atuação integrada desses profissionais permite uma melhor compreensão das necessidades do aluno e contribui para a construção de estratégias mais assertivas.

Políticas públicas e investimentos

Mesmo com avanços recentes nas discussões sobre inclusão, a especialista avalia que ainda há muito a evoluir, especialmente no campo das políticas públicas.

“Estamos avançando no debate, o que já é importante. Mas ainda precisamos de políticas mais incisivas e, principalmente, de investimento nas instituições, sejam elas públicas ou privadas”, afirma.

Ela destaca que, além de garantir profissionais de apoio, é essencial investir na formação desses trabalhadores. “Não basta ter um auxiliar de classe. É preciso que ele esteja preparado para atuar com esse estudante”, pontua.

Caminhos para uma inclusão efetiva

Entre as práticas consideradas bem-sucedidas, Janaína aponta o fortalecimento de equipes multidisciplinares e a criação de espaços que atendam às diferentes necessidades dos alunos.

“Precisamos de escolas com estruturas que permitam o desenvolvimento de múltiplas habilidades, não apenas aquelas trabalhadas em sala de aula”, diz.

No entanto, ela reforça que a mudança mais urgente deve acontecer na formação docente. “O currículo das licenciaturas precisa ser revisto. Estamos vivendo um aumento nos diagnósticos e nas demandas educacionais, e isso exige uma nova preparação dos professores”, afirma.

Para a especialista, a inclusão é uma responsabilidade coletiva. “Não adianta um setor culpar o outro. Escola, família e poder público precisam atuar juntos. Só assim vamos garantir uma educação verdadeiramente inclusiva para quem mais precisa, que é o estudante”, conclui.

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