Quarta-feira de Cinzas marca sexto ano sem carnaval de rua em Vitória da Conquista

Único bloco de rua gratuito da cidade nos últimos anos, Algazarra suspendeu edição em 2026
Apesar da pausa, o bloco Algazarra informa que manterá ações como Ponto de Cultura ao longo do ano. Foto: Rafael Flores
  • Ane Xavier
  • Atualizado: 18/02/2026, 02:36h

Nesta Quarta-feira de Cinzas, moradores de Vitória da Conquista retornam de viagem após passar o período carnavalesco em outras cidades. Sem programação consolidada de carnaval de rua, o município chega ao sexto ano consecutivo sem realizar festejos públicos regulares no período. Em 2026, o bloco independente Algazarra – O Bloquinho, criado em 2018 com a proposta de antecipar a folia na cidade, também não saiu às ruas.

A ausência do bloco ocorre em um contexto de descontinuidade das iniciativas carnavalescas no município desde 2020, quando as atividades foram interrompidas em razão da pandemia de Covid-19. Após a retomada de eventos em diferentes cidades do país, Vitória da Conquista ainda não restabeleceu um calendário fixo de carnaval de rua. O Algazarra vinha ocupando esse espaço com cortejos e ações culturais realizadas antes do período oficial da festa.

Criado em 2018, o bloco reuniu centenas de foliões na primeira edição, ao lado do grupo percussivo Azizi. Ao longo dos anos, promoveu cortejos, ensaios e shows, além de atividades formativas. Em 2024, realizou a edição com o tema “Muitos Carnavais”, com cortejo da Marujada Mirim e lançamento do disco “General Marinheiro”, do grupo Vozes do Beco. Em 2025, homenageou o babalorixá Pai Cely, que atuou em afoxés, escola de samba e bloco afro na cidade.

Em nota, a organização informou que não realizaria o bloco em 2026. “Agradecemos imensamente a cada parceiro, amigo, patrocinador e ao público que chegam sempre junto com a gente, mas este ano não deu”, diz o texto. Segundo os organizadores, a produção é feita majoritariamente por duas pessoas, que dependem de outras atividades profissionais e enfrentam etapas burocráticas para viabilizar o evento.

Bloco Algazarra em fevereiro de 2025, sua edição mais recente. Foto: Tiago Gama

Em entrevista à Mega Rádio, Rafael Flores e Ana Paula Marques, organizadores do bloco, detalharam os bastidores dessa decisão. Para eles, o hiato não foi falta de público — que sempre compareceu em peso —, mas resultado de um desgaste operacional acumulado.

Rafael relata que a principal dificuldade está na estrutura financeira e administrativa. “O principal obstáculo hoje para a gente se profissionalizar enquanto uma equipe de produção é realmente dinheiro”, declarou.

Ele informou que a realização do bloco depende de uma sequência de autorizações, incluindo a liberação de energia elétrica, que exige a apresentação de outras permissões prévias, gerando uma insegurança que vai até os minutos finais antes da festa. "Já contei com esse grupo de suporte para bater de porta em porta nas secretarias. Tem uma autorização principal, que é a da Coelba, que precisa de todas as outras. Na maioria das vezes, a gente só teve certeza que o bloco ia acontecer no momento em que teve acesso a essa ligação [de energia]", relata Rafael.

O organizador explica que, embora contem com uma rede de apoio apaixonada, a estrutura ainda depende do voluntarismo. "A gente sente falta dessa profissionalização. Isso ajudaria nas incertezas", afirma.

Ana Paula conta que o bloco surgiu como alternativa ao período oficial do carnaval, considerando o número de moradores que viajam na data. “A proposta do Algazarra, desde o princípio, era de fazer um carnaval prévio”.

Para  a organizadora, a corrida contra o tempo e os entraves administrativos acabaram minando a essência do projeto. O Algazarra, conhecido por sua identidade visual e curadoria cultural, estava sufocado. Ela relatou que o acúmulo de demandas administrativas reduziu o tempo destinado à criação artística. “Nesses últimos anos a gente começou a se desgastar muito com essas questões burocráticas todas”, conta.

A pausa em 2026 serviu, segundo ela, para "oxigenar". A ideia é buscar novas referências, observar outros carnavais e voltar com força total, sem que a produção do evento seja um fardo. "Decidimos fazer como vocês e curtir esse pré-carnaval, nos alimentando de outras fontes para transformar", dizia a nota oficial do bloco.

Apesar do hiato nas ruas, o Algazarra não acabou. Pelo contrário, o movimento ganhou uma nova roupagem institucional: agora é, oficialmente, um Ponto de Cultura. A certificação é vista como um caminho para captar recursos via editais de fomento e manter atividades o ano inteiro, não apenas em fevereiro.

"O ponto de cultura é um reconhecimento do que a gente já faz. Eu espero mesmo que em 2026 a gente encontre bastante os foliões do Algazarra em outros momentos", projeta Rafael. O grupo já realizou podcasts documentais sobre a história do carnaval conquistense e oficinas, provando que a festa também é memória e educação.

A organização informou que a pausa tem como objetivo reorganizar a produção e retomar as atividades em novo formato. “Mas isso não é um adeus, é um até logo”, registra a nota. Até o momento, não há confirmação sobre a realização de programação pública de carnaval de rua em Vitória da Conquista para 2027.

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