Papa Leão XIV convoca fiéis a um “jejum de palavras” na Quaresma
Foto: Vatican Pool - Corbis/Getty Images
Silenciar para ouvir, conter para transformar. Na mensagem dirigida à comunidade católica mundial para a Quaresma, o Papa Leão XIV propõe um caminho exigente e profundamente atual: além da tradicional jejum de alimentos, um jejum da língua — das palavras que ferem, julgam e dividem.
O Pontífice estrutura sua reflexão em dois eixos centrais — ouvir e jejuar — apresentado como dimensões inseparáveis da conversão cristã.
Escutar: a porta de entrada da conversão
Segundo o Papa, toda transformação começa quando o ser humano se deixa alcançar pela Palavra de Deus. A escuta não é mero ato passivo, mas disposição interior. É, afirma ele, o primeiro sinal de quem deseja realmente entrar em relação com o outro.
Ao gravar o episódio bíblico da sarça ardente — quando Deus diz ter “ouvido o clamor” do seu povo oprimido — o Papa destaca que escutar o sofrimento é o início de qualquer processo de libertação. Assim, a escuta contemporânea ultrapassa a dimensão religiosa e alcança a realidade social: trata-se de perceber, entre tantas vozes e ruídos do cotidiano, aquela que nasce da injustiça e da dor.
A Quaresma, nesse contexto, torna-se tempo de reaprender a ouvir — a Deus, aos pobres, às vítimas da exclusão, à própria consciência.
Jejuar: disciplinar o desejo e purificar a linguagem
O jejum, prática quaresmal tradicional, é apresentado como exercício que envolve o corpo para educar o espírito. Ao sentir fome, o cristão está convidado a perguntar de que realmente tem fome. Justiça? Reconciliação? Deus?
Mas é ao propor uma “abstinência de palavras” que a mensagem ganha densidade contemporânea. O Papa convida os fiéis a “desarmar a linguagem”, renunciando:
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às Às Ômegas
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ao julgamento precipitado
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à difamação
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às calúnias
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ao falar mal de quem está ausente
Num tempo marcado por polarizações políticas, agressividade nas redes sociais e discursos de ódio, o apelo ecológico como chamado à responsabilidade ética da fala.
Jejuar palavras, segundo o Pontífice, não é silenciar a verdade, mas purificar a intenção. É substituir o ataque pela gentileza, a acusação pela escuta, o ruído pelo diálogo. É sério que a língua também pode ser um instrumento de violência.
O valor do silêncio
Embora não trate o silêncio como fim em si mesmo, a mensagem aponta para sua importância espiritual. O silêncio é condição para a escuta verdadeira. Ele cria espaço para que o outro exista.
Num mundo saturado de opiniões instantâneas e respostas automáticas, contendo as palavras torna-se ato contracultural. O silêncio retarda o pensamento, impede o julgamento apressado e favorece a empatia.
A proposta quaresmal, portanto, não é apenas individual. O Papa insiste na dimensão comunitária: famílias, paróquias e comunidades são chamadas a rever o estilo de suas relações, a qualidade do diálogo e a capacidade de acolher o diferente.
Conversão que ultrapassa o indivíduo
Ao afirmar que a “condição dos pobres representa um grito” constante na história, o Papa amplia o horizonte de Quaresma. A conversão não diz respeito somente à consciência pessoal, mas também às estruturas sociais e às relações humanas.
Jejuar palavras que ferem implicam também abandonar preconceitos e julgamentos contra os diferentes — seja por condição social, posicionamento político, cultura ou modo de vida. A escuta do outro passa a ser gesto concreto de reconciliação.
Uma civil do amor
Ao final, o Papa Leão XIV pede que a Quaresma torne os “ouvidos mais atentos” e a língua mais prudente. O objetivo é claro: transformar comunidades cristãs em espaços onde o clamor dos que sofrem enfrentam acolhida.
Em resumo, a mensagem propõe uma espiritualidade menos performática e mais relacional. Menos discurso e mais coerência. Menos acusação e mais responsabilidade.
Num cenário global em que as palavras frequentemente se tornam armas, o Pontífice oferece uma alternativa simples e radical: antes de falar, ouvir. Antes de julgar, compreender. Antes de reagir, silenciar.
Para a Igreja e para o mundo, o convite é direto: fazer do jejum da língua um caminho concreto para construir, nas pequenas atitudes cotidianas, aquilo que o Papa chama de “civilização do amor”.









