Em entrevista no Mega Conversa, especialistas discutem desafios do uso medicinal da cannabis no Brasil

Em entrevista no Mega Conversa, especialistas discutem desafios do uso medicinal da cannabis no Brasil
Da esq. para dir.: Franklin Cardoso, Nice Soares, Lucas, Gustavo Marra e Aline Peixoto. Foto: Ane Xavier
  • Ane Xavier e Danilo Souza
  • Atualizado: 02/05/2025, 04:22h

O uso medicinal da cannabis e os entraves para sua regulamentação e acesso foram debatidos na última edição do programa Mega Conversa, realizada na quarta-feira (30). Participaram da discussão Gustavo Marra, CEO do Grupo Medicana; Nice Soares, presidente da Associação Uai Hemp; e a enfermeira Aline Peixoto.

Durante o programa, os convidados abordaram os principais obstáculos que ainda limitam o uso da cannabis medicinal no Brasil. Segundo Gustavo, o país conta atualmente com cerca de 800 mil pacientes registrados em importação direta, mas o número ainda é pequeno frente à população brasileira. Para ele, o principal desafio é o preconceito social e político. "Apesar da RDC 327/335 da Anvisa, em vigor desde 2019, o assunto ainda enfrenta grande resistência. Não se trata mais de um tema novo, mas de um tema estigmatizado", afirmou.

Informação como ferramenta contra o preconceito e a resistência social

Gustavo Marra também defendeu a realização de eventos informativos como forma de disseminar conhecimento e reduzir o estigma. “Se cada parte envolvida — empresas, associações, médicos, clínicas e o poder público — atuasse para disseminar informações, o tratamento já estaria mais acessível em várias regiões do país”, concluiu.

Outro ponto debatido foi a importância da formação médica especializada ao se tratar de pacientes que precisem utilizar o canabidiol no tratamento. Segundo Nice Soares, o Grupo Medicana oferece cursos gratuitos e à distância para profissionais da saúde que desejam aprender a prescrever a cannabis de forma responsável. "O segredo do tratamento está no acompanhamento. O médico precisa estar presente para ajustar as doses conforme a resposta do paciente."

A plataforma educacional da Medicana, lançada em agosto de 2024, já conta com mais de 100 médicos cadastrados. O grupo também anunciou parcerias com universidades, como a UFLA (Unidade Federal de Lavras), para fomentar pesquisas acadêmicas sobre o tema. 

Atenção individualizada e os efeitos do canabidiol no espectro autista

Nice Soares explicou que as associações de pacientes também auxiliam nas questões burocráticas, como a solicitação de autorização junto à Anvisa, além de oferecerem apoio jurídico em casos de judicialização. “Muitos dos nossos atendimentos são voltados para crianças com autismo, que têm sido o principal grupo beneficiado”. Ela também destacou os benefícios do canabidiol para pacientes neurodivergentes, ressaltando que o tratamento precisa considerar as particularidades de cada indivíduo, como hiperfoco e seletividade alimentar, por exemplo.

Ainda se tratando do tratamento com canabidiol para pacientes neurodivergentes, a discussão também abordou os efeitos adversos de medicamentos alopáticos, ou seja, aqueles produzidos pela medicina tradicional ocidental, como a risperidona, amplamente utilizada em crianças do espectro autista. Segundo Nice, há casos de efeitos hormonais severos, como o crescimento de mamas em meninos. De fato, estudos indicam que o uso dessa medicação pode estar associado a efeitos colaterais significativos, incluindo ganho de peso, sedação e aumento dos níveis de prolactina — hormônio que, além de causar o aumento das mamas, pode induzir a produção de leite (galactorreia), mesmo em pessoas que não estão grávidas ou amamentando.

Projetos de lei, judicialização e o papel do Estado no acesso ao tratamento

A enfermeira Aline Peixoto ressaltou a importância de compreender o histórico de criminalização da planta. “A origem do tabu está ligada a questões raciais e sociais. Ao longo da história, o álcool também já foi proibido. Hoje, estamos em processo semelhante de normalização com a cannabis”.

Aline destacou que, apesar da resistência, há avanços no campo científico e legislativo. "Projetos de lei já permitem que prefeituras e estados forneçam medicamentos, embora a maioria dos pacientes ainda precise recorrer à Justiça".

Gustavo Marra apontou que a substituição de medicamentos convencionais por cannabis pode gerar economia para o Estado. “Um paciente com autismo pode custar até R$300 mil por ano em terapias. O uso da cannabis reduz a dependência dessas intervenções”.

Apesar dos entraves burocráticos, os convidados concordaram que o Brasil tem avançado com responsabilidade. "A Anvisa criou um marco regulatório que separa o uso medicinal do recreativo. Isso permitiu que médicos e instituições desenvolvessem conhecimento com base científica e exportassem esse conteúdo para outros países", afirmou Marra.

Ao final do programa, os participantes destacaram a importância das associações na conquista de direitos e na popularização do tema. “O maior erro é ignorar que o canabidiol é uma terapia séria, que precisa de acompanhamento médico, dosagem correta e responsabilidade no uso”, concluiu Nice Soares.

Ouça o episódio completo, produzido e apresentado por Ane Xavier e Danilo Souza, abaixo. Disponível também no Spotify.

Comentários


Instagram

Facebook